Os Livros

Os muçulmanos são obrigados a acreditar não apenas na Escritura Divina revelada ao Santo Fundador do Islão, conhecida como o Sagrado Alcorão, mas também em todas as revelações divinas concedidas aos outros profetas, independentemente do povo ou da época em que viveram. É um princípio essencial da fé islâmica que, se alguém professar acreditar apenas na origem divina do Alcorão e recusar reconhecer a origem divina de outros Livros, como o Antigo Testamento e o Novo Testamento, a sua profissão de Islão deixa de ser válida.

Esta crença resolve alguns problemas, mas também levanta outros, exigindo uma reflexão mais profunda. Ela constitui o único fundamento sobre o qual pode ser edificada a unidade da humanidade na Terra, em conformidade com a crença na Unicidade de Allah. Remove a principal causa da desarmonia e da desconfiança entre as religiões. Contudo, a crença na origem divina de todas as Escrituras suscita algumas questões muito difíceis que necessitam de resposta.

Ao estudarmos os livros que afirmam ter origem divina, verificamos a existência de contradições, não apenas em aspetos secundários dos seus ensinamentos, mas também em matérias fundamentais da fé. Tal situação não poderia existir se todos tivessem sido revelados pela mesma Fonte Eterna de Luz.

Um exemplo claro encontra-se no facto de muitos desses livros conterem passagens que os seus seguidores interpretam como justificando a crença em divindades menores que partilham a divindade com o Ser Supremo. Em alguns livros, Deus é apresentado como o chefe de uma família de deuses, possuindo esposa, filhos e filhas. Noutros, determinadas figuras humanas consideradas santas recebem poderes sobrenaturais que pertencem unicamente a Allah. Existem ainda outras Escrituras nas quais a Unicidade de Deus é afirmada de forma tão absoluta e intransigente que não deixam qualquer possibilidade de partilhar os atributos divinos com outra entidade. Entre todas as Escrituras das grandes religiões do mundo, o Sagrado Alcorão distingue-se precisamente pela clareza e firmeza com que proclama a absoluta Unicidade de Allah.

Como resolve o Alcorão este aparente dilema?

Segundo o Sagrado Alcorão, existe uma tendência universal do ser humano para alterar gradualmente os ensinamentos divinos que foram revelados aos fundadores das suas religiões. A transformação do conceito da Unicidade de Allah em formas de politeísmo constitui uma manifestação dessa mesma tendência.

Podemos encontrar provas desta realidade ao analisarmos a história das alterações introduzidas, quer no próprio texto, quer na sua interpretação, desde o momento da revelação original. É por isso que o Sagrado Alcorão chama repetidamente a nossa atenção para o facto de todos os Livros Divinos estarem em plena concordância nos seus ensinamentos fundamentais apenas no momento em que foram originalmente revelados.

Na realidade, nem sequer é necessário seguir detalhadamente toda a história dessas alterações, pois a própria lógica conduz inevitavelmente à conclusão apresentada pelo Alcorão. Se não existe outro Deus além do Único Ser Supremo, e se aceitarmos que todas as religiões receberam os seus Livros de Allah, então esses Livros devem necessariamente estar em perfeita concordância, pelo menos nos seus princípios fundamentais.

Depois de estabelecido este princípio, surge uma outra questão importante: como podemos identificar os ensinamentos doutrinários originais comuns a todas as religiões?

É necessário encontrar um método logicamente aceitável que permita distinguir a verdade das alterações introduzidas posteriormente. Segundo o Sagrado Alcorão, os princípios fundamentais da religião estão tão profundamente em harmonia com a natureza humana que são espontaneamente reconhecidos pelo coração sincero devido à força da sua própria verdade.

Esses princípios são resumidos no seguinte versículo:

«E não lhes foi ordenado senão que adorassem Allah, sendo sinceros para com Ele na sua devoção, mantendo-se firmes na verdadeira fé, estabelecendo a oração e pagando o Zakat. Essa é a religião da reta conduta.» (Alcorão 98:6)

Isto significa que todos os fundadores das religiões do mundo receberam a ordem clara de adorar o Único e Verdadeiro Deus com absoluta sinceridade, dedicando-se inteiramente e exclusivamente a Ele. Foi-lhes igualmente ordenado que estabelecessem a oração regular, conforme instituída na respetiva religião, e que despendessem dos seus bens pela causa de Allah, em favor dos necessitados, dos pobres e de outras obras de caráter humanitário. É difícil encontrar qualquer religião que discorde destes princípios fundamentais.

Nesta exposição introdutória, não pretendemos desenvolver uma análise extensa sobre as diferentes formas de culto prescritas por Allah nem sobre as razões pelas quais essas formas diferem entre as várias religiões. O nosso objetivo, neste momento, é compreender por que motivo as religiões aparentam divergir tanto nos seus princípios fundamentais como nos seus ensinamentos pormenorizados.

Em resumo, podemos afirmar que o tempo exerce uma influência inevitável sobre todas as coisas, e que o conceito de deterioração é inseparável da passagem do tempo. Tudo aquilo que é novo acaba, inevitavelmente, por envelhecer e sofrer alterações. Basta contemplar as ruínas de grandes castelos e palácios da antiguidade para compreender esta realidade. Mesmo edifícios construídos pelos mesmos reis e projetados pelos mesmos arquitetos não escapam a esta lei. Em muitos casos, gerações posteriores acrescentaram novas estruturas ou alteraram profundamente o seu desenho original, ao ponto de quase desaparecer qualquer semelhança com a forma inicial. Noutros casos, foram simplesmente abandonados e transformaram-se em ruínas.

Segundo o Sagrado Alcorão, as diferenças profundas e aparentemente irreconciliáveis que hoje existem entre as religiões são, em grande medida, resultado das alterações introduzidas pelos homens das gerações posteriores. À luz deste ensinamento universal do Alcorão, o Islão abre caminho para a aproximação e a unificação das religiões, pelo menos nos seus princípios fundamentais. Desta forma, remove os obstáculos e as barreiras criados pelo próprio ser humano, que contribuíram para manter as religiões separadas como entidades completamente distintas.

Todavia, a razão anteriormente mencionada não é a única responsável pelas diferenças existentes entre os diversos Livros Divinos. Algumas dessas diferenças não foram produzidas pelo homem; eram, pelo contrário, exigidas pelas circunstâncias de cada época.

À medida que a humanidade foi progredindo nos diversos campos da civilização, da cultura, da ciência e da economia, em diferentes períodos da sua história tornou-se necessária uma orientação específica para responder às necessidades desse tempo. Por essa razão, Allah revelou sucessivos Livros Divinos contendo ensinamentos apropriados às condições particulares de cada época. Esses ensinamentos não eram universais em todos os seus detalhes, mas destinavam-se a responder às circunstâncias e exigências concretas dos povos a quem eram revelados.

Em épocas muito antigas, o ser humano levava uma vida ainda pouco distante da das espécies inferiores. O seu desenvolvimento intelectual era limitado, o seu conhecimento do universo extremamente reduzido e a sua compreensão do mundo muito restrita. Os meios de comunicação existentes eram insuficientes para lhe permitir compreender a verdadeira dimensão da Terra ou reconhecer a unidade da humanidade. Muitas vezes, o seu conhecimento limitava-se apenas ao pequeno território ou ao país onde vivia.

Consequentemente, muitos dos Livros Divinos revelados nesses períodos não fazem referência à existência de povos ou regiões para além do limitado horizonte daqueles a quem a revelação era dirigida. Isto não significa, porém, como alguns filósofos secularistas pretendem afirmar, que esses Livros fossem de origem humana e não divina.

Todas as revelações divinas foram concedidas tendo em consideração não apenas as necessidades espirituais das pessoas, mas também o nível de conhecimento de que dispunham na respetiva época. Caso contrário, os próprios povos poderiam ter rejeitado os mensageiros de Allah, acusando-os de contradizer aquilo que todos consideravam ser um facto estabelecido. Tal situação colocaria os profetas perante um problema praticamente insolúvel, pois eles próprios partilhavam o mesmo conhecimento disponível no seu tempo.

O Sagrado Alcorão apresenta vários exemplos desta realidade. Existem passagens em que a descrição da natureza é feita de forma a não entrar em conflito com o conhecimento da época, embora esse conhecimento viesse mais tarde a ser ultrapassado pelos progressos científicos. Qualquer posição diferente teria exposto o Alcorão a críticas: se contradissesse o entendimento dos contemporâneos, seria rejeitado pelas pessoas do seu tempo; se adotasse uma linguagem limitada apenas ao conhecimento antigo, seria criticado pelas gerações futuras.

É notável a forma como o Sagrado Alcorão resolve este desafio, preservando a sua validade para todas as épocas, sem oferecer fundamento legítimo para objeções por parte dos filósofos ou cientistas modernos.

O exemplo seguinte ilustra claramente este princípio. Hoje, qualquer pessoa sabe que a Terra gira sobre o seu próprio eixo. No entanto, se alguém tivesse afirmado este facto há catorze séculos e o tivesse apresentado como uma revelação divina, muito provavelmente teria sido considerado ignorante ou ridicularizado, e muitos acusariam Deus de desconhecer a criação que Ele próprio afirmava ter criado.

Sendo um Livro destinado a toda a humanidade e a todas as épocas, o Sagrado Alcorão não podia ignorar esta realidade. Contudo, em vez de apresentar uma afirmação direta que seria incompreensível para os contemporâneos do Profeta, utilizou uma linguagem extraordinariamente sábia. Referindo-se às montanhas, declara:

«Vês as montanhas e julgas que permanecem imóveis; contudo, elas movem-se como as nuvens se movem.» (Alcorão 27:89)

É evidente que as montanhas não poderiam deslocar-se sem que a própria Terra se movesse juntamente com elas. Contudo, o tempo verbal utilizado no original árabe é o mudāriʿ (muzāri’), que pode expressar tanto uma ação presente e contínua como uma ação futura. Assim, o versículo pode ser traduzido como: «As montanhas movem-se continuamente, deslizando sem qualquer esforço da sua parte.» Também poderia ser traduzido como: «As montanhas mover-se-ão como se navegassem.»

As pessoas da época poderiam ter preferido esta segunda interpretação. No entanto, frequentemente ignoravam outra parte essencial do mesmo versículo, que afirma: «Enquanto julgais que elas permanecem imóveis.» Como poderia alguém, em qualquer época, pensar que as montanhas estavam imóveis se estas começassem repentinamente a mover-se diante dos seus olhos? A descrição do seu movimento não deixa qualquer possibilidade de imaginar pessoas a permanecerem tranquilamente sobre a Terra enquanto observam esse fenómeno extraordinário.

Do ponto de vista lógico, a única interpretação plenamente coerente é a seguinte: «Enquanto considerais as montanhas imóveis, na realidade elas encontram-se em constante movimento.»

Existem muitos outros exemplos semelhantes no Sagrado Alcorão. Contudo, já os apresentei detalhadamente noutra conferência intitulada «Racionalidade e Revelação em Relação ao Conhecimento e à Verdade». Os leitores interessados poderão consultá-la para um estudo mais aprofundado.

Sabemos com certeza que, numa época muito antiga, quando os Vedas foram revelados para orientar os povos da Índia, estes possuíam escasso conhecimento das terras situadas para além dos mares. Consequentemente, os Vedas não fazem referência a países ou povos situados fora da Índia, para além das fronteiras naturais formadas pelos Himalaias, de um lado, e pelos mares, do outro. Este silêncio não deve ser entendido como uma limitação do conhecimento divino, mas antes como um silêncio deliberado e perfeitamente apropriado por parte de Allah.

Importa esclarecer que os factos mencionados nos Livros Divinos pertencem a duas categorias distintas. A primeira compreende os factos relacionados com o mundo físico, que podem ser compreendidos e verificados por qualquer pessoa, independentemente da religião a que pertença. São estes os factos que temos vindo a analisar. A segunda categoria refere-se às realidades do mundo invisível e da vida futura. Relativamente a estas, nenhuma verificação direta é possível, pelo que qualquer pessoa pode apresentar as interpretações ou afirmações que entender, uma vez que ultrapassam a capacidade de comprovação da experiência humana.

Apesar das diferenças existentes entre as diversas Escrituras, as suas semelhanças fundamentais tornam-se evidentes quando os textos originais são estudados cuidadosamente e sem preconceitos. Tal como um arqueólogo consegue reconstruir o projeto original de um edifício a partir das suas ruínas, também um investigador sincero consegue reconhecer a mensagem original da Unicidade de Allah, apesar das camadas de interpretações, alterações e tradições acumuladas pelos seguidores das diferentes religiões ao longo dos séculos, à medida que se foram afastando da época dos seus profetas fundadores.

Já referimos que algumas diferenças entre os Livros Divinos resultaram das alterações introduzidas pelo ser humano, enquanto outras foram estabelecidas intencionalmente por Allah para responder às necessidades específicas de determinadas épocas. Um exemplo desta segunda categoria encontra-se num ensinamento da Torá, que, à primeira vista, parece privar o povo judeu da possibilidade de conceder perdão.

Observado superficialmente e à luz dos valores atuais, esse ensinamento pode parecer excessivamente severo e inclinado para a vingança. Contudo, uma análise mais profunda das circunstâncias históricas revela uma realidade muito diferente.

Sabemos que os Filhos de Israel, durante os longos períodos de opressão sob o domínio dos faraós, foram privados dos seus direitos humanos mais básicos. Foram forçados a viver numa condição de humilhação e escravidão, sem qualquer possibilidade de defenderem a sua dignidade ou de resistirem aos seus opressores.

Ao longo de cerca de dois séculos de submissão, essa situação destruiu grande parte da sua coragem, da sua dignidade e do seu espírito de independência. Se lhes tivesse sido dada a possibilidade de escolher entre vingar-se ou perdoar, a maioria teria preferido renunciar aos seus direitos em nome de um falso perdão que, na realidade, não passava de uma manifestação de medo e fraqueza.

Nessas circunstâncias, o ensinamento da Torá, embora aparentemente rigoroso e unilateral, constituía precisamente a orientação mais adequada às necessidades daquele povo e daquela época. Tratava-se de uma sociedade espiritualmente doente que necessitava de um remédio forte para recuperar a coragem, a justiça e o sentido da dignidade.

No entanto, após aproximadamente treze séculos durante os quais a aplicação rigorosa da justiça e da vingança se tornou predominante, o coração dos israelitas endureceu profundamente. Foi precisamente nesse momento histórico que Allah enviou o Messias, cuja vida personificava o perdão, o amor, a humildade e a misericórdia.

Se, nessa época, Deus tivesse concedido aos judeus tanto a opção da vingança como a do perdão, é muito provável que a maioria tivesse continuado a escolher a vingança, sem sequer considerar a possibilidade de perdoar.

Qual deveria então ser o ensinamento mais adequado para aquele tempo?

Naturalmente, o perdão — mas sem oferecer a alternativa da vingança.

Foi exatamente isso que aconteceu.

Este exemplo demonstra claramente que certos ensinamentos das Escrituras, embora possam parecer contraditórios à primeira vista, na realidade servem o mesmo propósito dentro do plano divino. O objetivo de Allah é orientar e curar espiritualmente a humanidade, tal como um médico utiliza medicamentos diferentes para tratar doenças diferentes em momentos diferentes. Assim também, a revelação divina adapta determinados ensinamen

Os Anjos

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